Qual o limite de um Bodyboarder?

Teahupo’o, Jaws, The Box, The Right, SharkIsland, Puerto, The Wedge, El Frontón, Arica, Nazaré, Rileys….

 

A lista de picos em que os bodyboarders desafiam a natureza em atitudes insanas é imenso. A maioria deles, desbravado e surfado solitariamente durante anos até que a comunidade surfe chegue. Teahupo’o é um desses casos.

 

 

Bodyboarders em Jaws na remada – entre eles, Tâmega manobrando nas ondas gigantes

 

Depois do episódio na Irlanda protagonizado pelo tri campeão mundial Ben Player a comunidade Bodyboarding de todo o globo voltou a fazer o questionamento que ilustra o título deste artigo.

 

 

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Ben Player sendo resgatado na Irlanda

 

O australiano de 36 anos sofreu uma lesão grave no baço após manobrar em uma onda no pico de Rileys, na britânica Irlanda do Norte causando hemorragia interna e alguns dias internado no hospital. Teve que ser resgatado pela Guarda Costeira e levado de helicóptero.

 

A prática do esporte em si foi moldada na facilidade de se deslocar na onda e a possibilidade mais ampla de movimento próximo do tubo, diferente do surfe e do body-surf, que até hoje são irmãos fraternos. Quando Tom Morey viu a sua criação ser popularizada talvez não tenha pensado que um dia veria alguns dos mais destemidos homens desafiarem as leis da física e a força da natureza de tão surpreendente forma.

 

É característico do Bodyboarder tal atitude. O esporte se mistura entre mar e ar, as acrobacias são cada vez mais aperfeiçoadas nas manobras e as manobras são cada vez mais executadas em locais difíceis. Para o atleta, quanto mais rápida, cavada e forte for a onda, melhor. Durante muitos anos o inside de Waymea era o desafio do Bodyboarder estreante na ilha havaiana. Uma espécie de ritual inicial.

 

 

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O tri campeão no hospital

 

Desafiando limites

 

A extinta GOB e na sequência a IBA, entidades do esporte que até 2013 organizaram o bodyboarding a nível mundial são exemplos do quanto ultrapassar a barreira do limite pode ser ampliada. Eventos sensacionais com período de espera foram aplicados, ondas gigantes em bancadas rasas eram o convite ao impossível. Uma das etapas que até hoje fazem o imaginário de qualquer Bodyboarder é Arica.

 

O evento mais esperado do circuito mundial. A potente onda em rasa bancada de pedra sempre protagoniza surpresas para o público. Não é raro o mar estar acima dos dez pés e os atletas mesmo assim se jogarem. Que o digam Dave Winchester e Guilherme Tâmega, dois atletas espetaculares no local. O catarinense Eder Luciano, considerado por boa parte da imprensa internacional como o melhor surfista de ondas pequenas do circuito já mostrou que também pode desafiar seus limites lá. Nos últimos anos, entubou profundo e manobrou sempre na pressão.

 

 

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Eder mostrando que seu limite é maior do que podem prever

 

 

Guilherme Tâmega

 

Provavelmente nunca haverá atleta que consiga superar limites igual ele. No começo de sua carreira, vi uma declaração dizendo que o objetivo sempre foi a superação. GT empurrou os limites adiante, seja no free surf ou em competição. Livros ainda serão escritos sobre sua trajetória, estudos serão feitos sobre seu desenvolvimento do esporte mas o mais importante nisso tudo é o exemplo que ele passa às gerações que o acompanham.

 

Tâmega em El Frontón, nas Ilhas Canárias: Qual o limite de um Bodyboarder?

 

 

Teahupo’o x Arica

 

Nos dois picos mais sinistros GT protagonizou episódios importantes, que são história no Bodyboard mundial. Em Teahupo’o, no ano de 2003 e no Chile, em 2012. Chico Garritano, Head Judge do circuito mundial de Bodyboarding  e testemunha dos dois atos, fala sobre o assunto:

 

“Muito se fala do rollo do GT em Arica,em uma parte extremamente mortal onde nunca foi dado e creio que nunca ninguém dará.

Tanto que nos depoimentos de todos os tops logo após o evento destacam a insanidade do GT (Amaury, Ryan, Jeff, Mark) expressando a admiração de estarem competindo com um ser extra terreno,com 2 filhos e simplesmente com a vontade de bater no lip.

Mas o de Teahupoo pode ter sido mais mortal,com certeza. Pois houve o impacto com a pedra e o apavoramento do Vetea David.

Com certeza pelo mistério de ninguém ter visto o rollo aéreo do GT em uma parte da onda onde NINGUÉM nem ousa cavar..ele estava acelerando para bater lá na frente.

Fico com Teahupooainda,pelo feeling que senti na hora..E creio que todos.”

Na ocasião Tâmega sofreu uma cirurgia para retirada de pedaços de corais de seu corpo.

 

 

 

GT e sua incrível disposição em Arica. Inclusive o rollo na onda chilena.

 

 

O passo mais importante em toda essa jornada pode ter sido levar essa superação de limites a outros patamares, já que agora Guilherme dedica-se a sua marca de pranchas e equipamentos para Bodyboard, a GT Boards. Um passo dentro da indústria que se torna ainda mais singular quando se fala em transmitir a mensagem da conquista pessoal.

 

A obsessão em extrapolar os limites é o que faz nossa tribo dar um passo adiante. Viver com essa emoção e transformá-la em combustível para nossa vida nos traz a certeza de que conseguimos alcançar a consistência necessária para viver o dia a dia. Para crescer pessoalmente e transformar a sociedade.

 

O limite está dentro de nossas cabeças e da capacidade de nossos corpos. Resta saber até onde pode nos levar. Enquanto não descobrimos, vivemos de extrapolar a razão e superar a virtude. A ordem sempre é evoluir.

 

 

 

Moacir Kienast

 

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