O último surfista de alma

Foto Thiago Tonello

Foto Thiago Tonello

Todos na “Terra do Nunca” ainda recordam a passagem do tal surfista por suas bancadas…….mesmo que passados já muitos anos! Ele era um garoto sorridente, de bem com a vida; seus costumes, forma de vestir, equipamentos etc.Enfim tudo muito diferenciado, em tempos onde tudo girava em torno um padrão, encontrar um surfista assim,era algo um tanto estranho;  mais cá entre nós……estranho mesmo é todos de uma tribo, que antes propagava liberdade agora  estarem bitolados e aprisionados!

Seria ele uma prévia do que estava para surgir num futuro breve? Seria ele um surfista/marionete  em testes; desenvolvido e submetido à uma lavagem cerebral pelas gigantes marcas do surfwear?

Tenho certeza que não; esse surfista era alguém muito puro, cheio de essência um brother totalmente roots.

Suas pranchas com um acabamento nunca antes visto, funcionavam magicamente (ele contava que, uma a uma eram fabricadas de forma artesanal) em todo seu quiver  a única coisa que existia além da parafina era o nome do shaper e às suas dimensões;  nada de logo marcas e adesivos.

Todos perguntavam se interiormente : será mesmo que existe um shaper assim? Será mesmo que é possível ser surfista, sem estar dependente de todas às inovações tecnológicas?

Havia algo espantoso em suas conversas! Ele afirmava desbravar os picos ao redor do mundo apenas fazendo uso de uma tábua de maré, fases da lua e suas influências sobre as correntes marítimas.Como assim? Você não usa os sites de previsão? Aplicativos de smartphones? Ele sorria e fazia uma cara de quem não estava entendendo nada e respondia:minhas  trips são guiadas apenas por adrenalina,expectativa e esperança de  boas ondas.

Suas roupas  e suas tatuagens únicas! Nada de similar ou parecido. O som que ele curtia em seus headphones nunca antes fora ouvido em rádios ou filmes de surf.

Seria ele um messias (libertador de um povo) libertador de um lifestyle genuíno?

Nos fins de tardes após longas horas surfadas ele relatará inúmeros casos de amigos, que havia sido tomados de assalto por um tal Dr.Capitalismo, esse assaltante era especialista em furto de mentes e corações;  ele semeava necessidades e desejos artificiais o que era o suficiente para transtornar a existência destes brother’s. Esse assaltante era também um palestrante nas horas vagas; seus pequenos workshops e mini conferências, sempre abordavam a mesma temática: INSATISFAÇÃO.

Assim seguia contando como se tornou um surfista solitário e relembrando quantos amigos já haviam se perdido pelo caminho.Esse surfista de alma em breve peregrinação pelas ondas da Terra do Nunca deixou vestígios de um passado único e verdadeiro;    um estilo utópico!

Essa alegoria vem na contra mão de um sistema colonizador de mentes; sistema esse que valoriza o “ter” (coisas do surf) e não o “ser surfista (ser um elemento desta rica cultura) que já foi em tempos longínquos um paradoxo de liberdade.

A verdade é que se hoje existem tantos surfistas insatisfeitos com equipamentos, trips, roupas e até mesmo com as ondas do quintal de casa……..Nós é que somos os únicos responsáveis! Sim!!!! Nois surfistas que alimentamos essa máquina multimilionária que é o mercado do surf wear contemporâneo!

Sabemos, que nem todos desse mercado são mercenários……mais sem os devidos cuidados;  todos tem potencial para se tornar.

Vivemos a era mais farta de bens e recursos, para que haja um pleno desenvolvimento do surf e satisfação como surfista; mais o que temos hoje são surfista cada vez mais insatisfeitos!

Já cantou Rashid, “E Se….”

E se, o mercado, desejos e necessidades artificiais não nos conduzissem mais?

Voltaríamos a essência!Seríamos surfistas de alma, novamente livres das correntes e cadeias dos desejos artificiais.E esse conto, não seria sobre o último surfista do gênero; mais sim um relato corriqueiro de uma lifestyle única, verdadeira.

Qual sua opinião? 

 

 

 

Leia mais texto  do “Diários da Terra do Nunca”

 

 

 

 

17 comentários

  1. Sid

    Muito bom o texto Fernando, somos todos marionetes do sistema, não temos mais identidade própria, não somos o que gostariamos de ser e sim o que os outros gostariam que fossemos!

  2. Jackson de Oliveira

    Texto irado Nando, pode crê, realmente o sistema tenta nos aprisionar. Lembrei de quando mandei fazer minha primeira prancha; mandei as medidas que desejava, as curvaturas, e pedi com caixa de quilha central para poder usar como mono quilha quando desejasse. Pra minha surpresa, a confecção da prancha foi um parto, o vendedor pirou, e perguntou se eu não estava equivocado no que estava querendo mas firmei minha posição e a complicação continuou, por fim depois de muito argumentar comigo, o tal vendedor disse: se eu fizer esta prancha você vai ficar mesmo com ela? Porque se você não ficar não tenho pra quem vender, ninguém faz uma prancha dessas.
    Diante disto pude ver que o sistema tenta te fazer igual aos demais; mas nós seguimos com nossas convicções. Eu aprendi a ser feliz com o que tenho, me divirto com o que tenho; isso não quer dizer que eu não queira o “melhor”, mas enquanto o melhor não chega, vou curtindo com o que tenho.
    Abraço

  3. Imagine você que quando eu conheci o surf em meados dos anos 70 nem sequer me aproximei dos verdadeiros surfistas la na Zimba…
    ainda posso te mostrar que existe sim esse surfista da terra do nunca que não dão bola pra marcas ou que sequer tem algum adesivo nas pranchas..
    vou citar só dois que conheci recentemente o “Marisco e o Ferrugem” locais e remanescentes dos verdadeiros surfistas de alma.. locais do “Canto da Vila”

    Aloha..

  4. Robson

    Muito top Nando! Vejo muito isso na musica tambem. Pessoas preocupadas em em se tornar endorses de alguma marca e querendo mais serem vistas do que ouvidas. Parabens Nando!

  5. Fernando, GRANDE orgulho tenho de você. Excelente pessoa, Bom pai de família, Religioso, e ESPORTISTA! Incentivar o SURF como “filosofia de vida”, é sem dúvida uma bela idéia sua para o nosso país que tem quase 8.000 KM de costa maritíma. Parabéns pela sua “luta” no incentivo da “molecada” de Joinville nesta belíssima e saudável prática esportiva. Att. Régis Armellini.

  6. Everton

    Concordo 100% brother. Surfe não é ter o melhor equipamento. Tem muito mais a ver com natureza e estilo de vida, e isso não pode ser comprado. Aloha!

  7. Thiago Tonello Indonesia
    Autor

    Parabéns pelo excelente Texto Fernando. Sabias palavras e bem isso mesmo. Aloha!!!!

    Thiago Tonello Indonesia

    • Fernando

      Obrigado Thiago! Boas ondas por aí. Quem sabe um dia estarei aí dividindo esse outside paradisíaco. Abraço

  8. Rony

    Boa reflexão Fernando! Para aqueles que começam no esporte, gera uma ideia equivocada que relaciona equipamento com desempenho/satisfação. Aumentando a chance de frustração sem se quer experimentar a sensação que o esporte proporciona. E esse não é o intuito.

    Abraço

    • Fernando

      Isso Rony, esta apenas nas primeiras remadas mais já captou à essência do surf! Abraços e vida longa ao surf.

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