Navega na minh’alma

Pedra do miraguaia praia do pontal (2)

 

Suas ondas são faces plácidas de tez escura e arcos perfeitos que fazem sonhar. É um ambiente inóspito, selvagem, cravado no meio da cidade, que eleva estes sonhos.

 

Foi-se o tempo em que transpor o rio Itajaí-Açú a nado era algo natural. Uma simples brincadeira de amigos. A remada era treinada ali mesmo, ante os navios entrando pela barra apitando e chamando a atenção, dando bronca à aqueles que ousavam desafiar o progresso.

 

O molhe norte, braço de pedras construído pelos homens e que adentra o mar agitado é até hoje referência aos pescadores e também amigo dos surfistas. Por sua característica física ser diminuta ao molhe sul, a água escura do mar, personalidade adquirida por misturar-se ao doce rio na entrada do vale, fez o local ser relegado durante muitos anos em detrimento a picos próximos.

 

Os dias de chuva são sempre os preferidos. O barulho das gotas caindo no oceano transformam em cenário perfeito o ambiente bucólico. A textura da água, incomum.

 

Somente hoje em dia consegue-se notar a mudança na paisagem. As dunas preservadas, o longo trajeto até o mar e sua extensa arrebentação isolam cada vez mais o surfista daquilo tudo que ele renega por alguns momentos. Encontrar-se longe de tudo que o sufoca, possibilitando assim concentrar-se a recarregar as energias e manter-se livre do que não lhe cabe.

 

Mas o que importa mesmo está lá dentro. As séries alinhadas e simetricamente encaixadas na dura e profunda bancada de areia fazem de Navegantes uma especial atração. Dificilmente encontra-se um dia em que não há satisfação garantida.

 

Em contraste ao típico pescador local, ou o cidadão mais humilde, que ainda vive na velocidade da velha vila de nossa senhora dos navegantes, a cidade ferve com seu jovem e pujante porto. A transição é sentida nitidamente na reformulação das veias centrais e no choque cultural. Fosse pela falta de uma ponte, ou pelo pesado ferry boat que ainda é a mais próxima junção à vizinha Itajaí, criou-se uma cena diferenciada também no surfe da cidade.

 

Um misto de surfistas e pescadores locais ante uma horda de praticantes vindo de todo o vale do Itajaí e norte do estado complementam o ambiente um tanto hostil e aconchegante ao mesmo tempo. É possível estar junto mas sem se encontrar.

 

Perde-se nos dedos e na memória a quantidade de tubos surfados. Admirar-se ainda com aqueles triângulos levantando ao apor da espuma levemente soprada pelo terral frio de outono é algo estarrecedor.

 

 

 

Drop, parede, tubo, manobra, junção. Remada. Alegria, contentamento, paz no coração. Tudo de novo. E cada vez mais.

 

Contenta-se aquele ser que, da praça central ao Gravatá trata bem o oceano. Que tira seu sustento, que liga o motor da vitória diária após a queda ao amanhecer.

 

Ondas de manobras incontáveis, arcos triunfantes e linhas clássicas remetem a uma época do surfe que ainda não exigia-se uma obrigatoriedade de esforço infindável, mas sim a preocupação com a estética do surfe arte. Jovens malabaristas agora surgem em harmonia com os surrados corpos de artistas mambembes, desenhando seus quadros em ondas plásticas e pincéis a prova d’água, por detrás de redes, tartarugas, peixes e moradores.  

 

Ano após ano, mês após mês, onda após onda, uma em cima da outra, assim as histórias também se acumulam. E circundam nossas mentes, tripudiantes, agitam as meninges, atiçam a alma.   

 

Navegam no coração.

   

Moacir Kienast

 

 

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