Manifesto do surfe olímpico

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Devemos ocupar espaços. Avançar. Seguir em frente sem pestanejar. Mas, acima de tudo, incentivar a base.

 

O surfe finalmente pode se tornar um esporte olímpico. Está entre os quatro escolhidos pela organização das Olimpíadas de Tóquio em 2020 para participar da competição que passará a adotar esportes itinerantes em seus cronogramas. Junto com o skate, traz a consagração dos radicais perante a sociedade.

 

Mas, para ser a mudança, reforço, é necessário olharmos a base. Preparar estruturas nos colégios, trazer à tona os conceitos catedráticos para as linhas das ondas. Vivenciar o histórico escolar e trabalhar os litorais em grandes laboratórios de ensino.

 

Fincamos a bandeira do amadurecimento. Crescemos. Deixamos de ser um esporte transgressor no sentido abstrato da palavra para ser somente opositor em atitude. Mas, antes de mudarmos o mundo, devemos nos prevenir para o mundo não nos mudar.

 

Sabemos que os métodos de grande eventos estão falidos. As próprias organizações promotoras dos dois maiores eventos esportivos do mundo perceberam que os propósitos do esporte perderam-se em emaranhados de contratos e faturamento publicitário. Ao mesmo tempo que faturam cifras inimagináveis e atingem números de expectadores na casa dos bilhões, observam-se cidades promotoras afundarem-se em dívidas e deixarem de lado outros problemas relativos à sua sociedade. O retorno nada benéfico. Uma fórmula inexata.

 

Atletas explodem em casos de doping continuamente, em tentativas despudoradas de ultrapassar os limites. Agem em pressão para alcançar resultados por pressão de seus patrocinadores e ânsia de vencer. Perdem-se na essência da competição sadia. A indústria do doping movimenta muito dinheiro.

 

Em face destas questões e na perspectiva da sustentabilidade o surfe deve ser modelo não somente de gestão, mas de organização sustentável e equilibrada financeiramente. O legado a ser deixado tem que ser maior e mais benéfico aos cidadãos que o recebem, os fluxos financeiros estruturados e a formação amadora respeitada, em face do bom aproveitamento do esporte.

 

Ao mesmo tempo que sonhamos em ver nosso esporte explodindo nas telas da TV, queremos menos praticantes. Esse é o dilema do equilíbrio sustentável.

 

Vemos a história passar por nossos olhos e sabemos que o legado nos foi negado. Os exemplos de outras nações que abraçaram as olimpíadas demonstram que esse é um cavalo de Tróia social.

 

 

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Perder-se nestas concepções e festejar o surfe olímpico é quase uma aprovação do esporte nesse sistema corrompido.

 

Devemos permanecer como agentes da mudança. Estimular a formação de atletas compromissados com suas raízes e seus ideais, não com o corporativismo financeiro. Vamos fincar nossa bandeira no terreno fértil da competitividade sadia, e estabelecer propósitos alinhados com o pensamento do novo ser humano.

 

Ao invés de sermos mais um esporte olímpico, devemos ser o esporte olímpico que irá modificar as estruturas.

 

Vida longa ao surfe! Vida longa ao esporte olímpico! Vida longa à essa sociedade que se inicia. Que os corações e mentes dos atletas que representam suas nações sejam recheados de esperança e fé em um mundo melhor, e que o surfe seja, antes de tudo, um esporte limpo, saudável e formador de pessoas com propósitos.

 

Ocupar espaços. Vencer por organização. Aprender com os erros dos grandes esportes. O resto é consequência.

 

Moacir Kienast

 

 

 

 

 

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4 comentários

  1. Aliatar J. Custodio

    Texto muito bem elaborado..mais vem cá.. Ja perguntaram aos surfistas se esse é. o desejo deles que o surf vire esporte olímpico..Imagina-se chegar no fim de semana para fazer um surf naquele pico predileto e uma grande bandeira hasteada..proibido surf neste local atletas olímpicos treinando..
    Como ja vimos em alguns picos por ai..dois ou três se acham donos do pico..Vejo garotada saído das escolinhas e se achando que já podem gritar e dominar o line up
    Ainda prefiro acreditar que a liberdade de surfar seja o principal ideal de cada surfista.
    A busca da onda perfeita, a amizade, a vive do surf é a harmonia do homem com a natureza..
    “Vida longa ao surf” Aloha..

    • Acho legal a ideia do surfe virar esporte olímpico. Não iria ter problema algum quanto ao “pico predileto” estar liberado somente aos atletas olímpicos, até mesmo porque as olimpíadas acontecem somente de 4 em 4 anos e sempre em países diferentes. Aloha

      • Moacir Veiga Kienast

        Aloha Rodrigo!

        uma ótica interessante mesmo. Principalmente pq o Comitê Olímpico está querendo inserir o surfe como esporte itinerante, ou seja, não aconteça todas as edições.

        Mahalo por comentar!

    • Moacir Veiga Kienast

      Olá Aliatar,

      realmente esse equilíbrio é o que devemos ter antes de comemorar.

      Obrigado por comentar.

      Mahalo!

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