Caminho da Luz

Moacir Kienast foto @Dojule Moacir Kienast foto Roberto Miranda Jr

Nosso colunista tem o faro pelos tubos:

“Pode ser aqui em Itajaí, lá em Floripa, no Rio, no Hawaii, na Indonésia. A busca vai ser a mesma, constante, imensa, interminável.” Moacir Kienast 

 

 

Se perguntarem a dez surfistas, pelo menos nove dirão que o tubo é sua manobra preferida. Aquele momento mágico, único, de relação íntima com a força da natureza, é inexplicável. Somente quem sente, sabe.

 

Imagens até podem transmitir um pouco do momento, ou quem sabe atrair os olhares, mas não exprimem o valor de entubar.

 

Eu, particularmente, tenho o tubo como o principal objetivo na onda. Sempre. Não titubeio. Se vejo uma placa de água se formando em cima da parede é ali embaixo que me posiciono. Nada mais. Espero e curto aqueles célebres segundos espetaculares. Mas, por quê?

 

Cada um teu seu motivo especial. Ou sua busca dentro d’água. Estamos sempre atrás de algo, de repostas, a fim de nos encontrar, de achar nossas origens, de celebrar nosso eu perfeito e interior que existe no âmago de nossa existência. Dentro do mar, dependemos de nós mesmos, mais nada.

 

Talvez seja isso que busque, o meu verdadeiro ser. Através dos anos aprendi que o lugar que mais me sinto bem é dentro d’água, eu preciso disso. Talvez uma forma de equilibrar um pouco o caos momentâneo que o viver em sociedade me traz, ou a reciclagem de meus sentimentos e a aceitação por não conseguir lidar com tudo aquilo que me rodeia. Enfim, ali dentro é onde me sinto bem. É o MEU momento. Confesso que hoje em dia não tenho mais tanta vontade de estar em locais públicos, ou vida social agitada. A família e o mar já me bastam. Encontrei minha paz.

 

Aquele cilindro perfeito entalhado em um pedacinho de mar e que desafia a gravidade forma uma redoma em que podemos nos encontrar. O espelho interior, a força contrária utilizada em benefício próprio.

 

 

 

 

Nós nos mostramos realmente como somos dentro do mar. O mais ansioso não espera a sua onda, ele vai buscar. O ambicioso, rema em todas. O calmo, talvez nem pegue uma onda, mas está ali, curtindo o momento. O educado, sempre cede a sua vez. O radical, domina cada centímetro do turbilhão salgado, o indeciso, deixa de manobrar na hora certa. O atirado, faz os tubos mais profundos, assim como o dedicado está sempre em evolução. Mas o que importa em tudo isso, é que todos eles querem somente uma coisa: o momento mágico de estar em aparente sintonia com a natureza, com o mar. Aquele momento que você esquece a hora, esquece os compromissos, esquece da vida, lava a alma com água salgada.

 

A força do mar muda seu equilíbrio interior, sua órbita. Por aquele breve momento dentro do tubo o surfista muda sua vida, seus hábitos, seu biotipo. Quem está a sua volta também sente esse poder. Seja fisicamente, psicologicamente, nas rotinas diárias, na evolução em seu serviço, no sorriso do rosto queimado, nas manhãs que começam antes mesmo do dia clarear, na literatura, na música.

 

É lá dentro que descarrego toda minha raiva, angústias e frustações. Onde eu berro sem me importar com o que os outros vão pensar, onde revejo meu papel na sociedade, onde eu faço planos ambiciosos e realistas. É onde eu treino minha disciplina, meus limites físicos, minha evolução pessoal.

Pode ser aqui em Itajaí, lá em Floripa, no Rio, no Hawaii, na Indonésia. A busca vai ser a mesma, constante, imensa, interminável.

 

“Pois não basta dizer, falar. Tem que praticar! Toda palavra faz mesmo diferença, se virar ação.”

 

Moacir Kienast

 

 

 

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